11 de abr de 2012



Wislawa Szymborska
(pronuncia-se mais ou menos Vissuáva Chembórska)
nasceu em 1923, no vilarejo de Bnin, hoje parte de
Kórnik, uma pequena cidade próxima a Poznán, na Polónia. 
(poemas)



A Vida na Hora

A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento
das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem
cruéis.
                                                 
Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não
                                                                        [conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.

Wislawa Szymborska




Ganhadora do prêmio Nobel de literatura
de 1996 (premiação justa diga-se de passa-
gem), a polonesa Wislawa Szymborska
sempre escreveu pouco. Beirando os noventa
anos, toda sua produção, que cabe num volu-
me relativamente pequeno, pode ser lida em
um dia ou dois, mas requer tempo para ser de
fato apreciada. E isso não porque ela "escreve
difícil", pois , para os poetas poloneses nascidos
no entreguerras, quando seu país ressurgiu das
ruínas de três impérios, não havia crime ou pe-
cado maior que o hermetismo, a obscuridade.
Pelo contrário: seus versos, que, lúcidos e
acessíveis, nunca recorrem a referências esoté-
ricas e a passes verbais de mágica, desdobram-se
quase como equações lógicas cuja argumentação
pode ser acompanhada por qualquer um. Nem
por isso se trata de uma poesia fácil, no sentido
de feita com facilidade. Sua arte, que é da con-
tenção, da economia e da reticência, pressupõe,
em cada poema uma intencionalidade meticulosa-
mente pensada e, portanto, uma prolongada 
gestação. A polonesa só escreve seus poemas 
necessários e os escreve apenas uma vez, vale
dizer, ela inventa procedimentos novos para cada
um deles e não os repete nem os converte, como
fazem bardos menores, em matriz xerográfica
de dúzias de poemas similares...

Trecho da orelha do livro, escrito 
por Nelson Ascher.




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